Capítulo 1

Karu’ol

O odor fétido do respiradouro onde estava escondida enjoava-a um pouco. “Cheiro de troks, que nojo”, pensou Karu’ol para si mesma. A ferida na perna incomodava-a um pouco, mas o que a deixava inquieta era o rasgão na sua capa de invisibilidade, dada por Rakn na sua iniciação à vida de arqueira-mor. O rasgão perturbava o ciclo mágico do tecido e não a deixava ficar completamente invisível.

Decidiu ver melhor a ferida na perna, e esta não era muito funda. Tinha ainda 2 frasco de vidary, um deles a meio, pois já o tinha usado na luta na floresta para chegar aqui à fortaleza.

“Malditos troks e os seus lupus pulguentos”, que a cheiraram enquanto tentava passar despercebida pela copa das árvores. A luta tinha sido curta, já que despachou logo dois guardas com uma seta dupla, mas o terceiro puxou-a da árvore e rasgou-lhe a capa. Sorte que os lupus fugiram quando ela o despachou com um punhal certeiro na testa. O delicado punhal que M’rty lhe deu, feita de um material caído dos céus, que está sempre afiado.

Olhou outra vez para os frascos, que brilhavam a purpura e acabou de beber o frasco que estava a terminar. “Afinal, foi para isto que a Maty’ld mos deu”. Guardou o outro no seu cinturão e contou as adagas que ainda tinha. O seu arco dobrável estava preso por um fio de ouro à cinta e ainda tinha algumas setas, uma delas explosiva e uma com um feitiço de ácido. E o punhal na bota.

“Já virei meia fortaleza e ainda não o vi…para um tipo grande esconderam-no bem…” pensou Karu’ol enquanto espreitava por entre os ferrugentos ferros do respiradouro.

Começou a sentir o efeito do vidary a regerar-lhe o corpo e a sua mente vagou para uns dias atrás, e recordou-lhe a conversa que tinha tido com Andry…

Veio-lhe à memória a entrada de rompante na Guilda da Magia em Bock, a cidade-capital. As portas bateram com força nas paredes e os empregados correram assustados.

-Onde está Andry?, gritou Karu’ol. Quero falar com a minha mãe!

O mordomo-mor surgiu de uma das ameias, apressado e sem fôlego. -Menina Karu’ol, há tanto tempo. A menina já não nos visita há mesmo muito tempo.

-Estou com pressa Jabr’s, leva-me à minha mãe, gritou Karu’ol. -É um assunto, literalmente, de vida ou de morte.

-A Feiticeira-Sublime está em reunião com a Sacerdotisa-Suprema e pediu para não ser incomodada, menina Karu’ol, respondeu Jabr’s olhando para o chão.

-Está na converseta com a minha madrinha? Leva-me a elas, já…ou melhor, eu vou lá ter, disse Karu’ol, que subiu as escadas três a três, empurrando alguns servos que não se afastaram a tempo.

-Menina Karu’ol….gritou Jarb’s…por favor…

Karu’ol conhecia o castelo da Guilda da Magia de cor e salteado. Tinha jogado às escondidas com os seus amigos e o seu irmão milhares de vezes, ou andado a caçar gambezins de noite. Sabia que as reuniões eram sempre no salão nobre, na varanda que dava para ver a cidade de Bock e o pôr-do-sol deslumbrante no lago Sumeresvi.

Desta vez não abriu as portas de rompante, “estou com pressa, mas não maluca, pensou” e com cuidado espreitou para dentro.

Andry estava num divã, a mordiscar frutas que reluziam com o sol…uma aura mágica pairava sobre ela, uma energia cor de laranja que emanava suave enquanto comia um romanis. No balcão da varanda estava Noq’ybay, a sua madrinha…a olhar para o horizonte enquanto a sua aura azul-celeste brilhava ao sol…não se aperceberam da entrada de Karu’ol.

-A cidade está demasiado sossegada, comentou Nok’ybay. Algo está para acontecer…

-Está sempre algo para acontecer, responde Andry. – Fora o que nós temos de fazer acontecer…ainda para mais…

-Mãe, mãe…interrompe Karu’ol, preciso falar contigo…urgentíssimo. Temos de…

-Primeiro diz olá, filha…e cumprimentas a Nok’ybay como deve ser, impôs Andry, a endireitar-se no divã.

Karu’ol aproxima-se da madrinha e beija-a na cara 3 vezes, a segurar-lhe a mão.

-Estás inquieta, Karu’ol…e acelerada…está tudo bem? pergunta Nok’ybay, que aproveita para lhe por a mão na testa, suavemente, e diz umas palavras em surdina. Uma luz suave azulada emana da mão da Sacerdotiza-Suprema e toca suavemente o rosto de Karu’ol. O suar desta desaparece e a respiração fica mais calma.

-Obrigado madrinha, os teus poderes de xintzu acalmam-me sempre, diz Karu’ol. Mãe, precisamos de partir…o Davy…O Davy está em perigo…