Caminhar

Os dias felizes fogem, num correr fugaz e colorido
Mesmo quando estou em ti, não sei se somos nós
Para onde fugiu o romance perdido?
Por onde devo procurar a nossa voz?

Quando estamos juntos, nunca me ouves…
Quando estamos juntos, nunca me salvas…
Quando estamos juntos, nunca me sentes…
Quando estamos juntos, nunca me amas…

Como conseguirei caminhar sem ti?

Estamos tão longe quando estamos perto
Estamos vivos mas o nosso amor morreu
Só queria desaparecer no seco deserto
Recordar um amor que já não é meu

Quando estamos juntos, não somos nada…
Quando estamos juntos, não somos os dois…
Quando estamos juntos, não somos madrugada…
Quando estamos juntos, não somos corações…

Como conseguirei caminhar sem ti?

De joelhos no chão frio, sem apego ao romance
Sonho com os dias que já foram nossos
Numa existência translúcida vivida em transe
Sinto um frio, desejo errante nos ossos

Caminhar sem ti…
 não…
Caminhar para ti…

Levantar-te nos meus braços, rodopiarmos no céu estrelado
Fazer de ti a minha musa, ter-te sempre ao meu lado
Escrever-te numa ode à beleza, pintar-te nua numa nuvem presa
Levar-te ao céu e cantar-te alto um poema…a ti, minha princesa…

E lembrar-te que juntos, somos mel
E lembrar-te que juntos, somos carrossel
E lembrar-te que juntos, somos romance
E lembrar-te que juntos, temos tudo ao alcance…

E caminhar contigo…

Ódio

J. senta-se na mesa, puxando a cadeira gasta pelo soalho sujo…à sua frente, folhas de papel e um lápis mal afiado, roído dos nervos.
J. pega no lápis, olha para a ponta e, a tremer, começa a escrever…

O teu nome em mim ficou gravado
Sem nunca ver a tua face verdadeira
Rasgar-te esse sorriso perverso e imoral
Destruir o teu rosto cruel, e afogar-te no teu fel
És uma falsidade que o mundo não vê, e eu não consigo afastar-te

Vejo o pecado no que dizes, provocando a dor e amargura
E não sei rezar a Deus por ti, nada de amável me sai
Não me acredito que já foste inocente, e agora cresceste nisto
Não me acredito que já foste comum, e num demónio te tornaste

És podre e eu sei que sabes que és
És podre e eu sei que sentes o teu sorriso a matar
És podre e queria por-te um fim
És podre e em mim ficou o teu nome gravado

Espero que no inferno haja um lugar para ti
Ardas, sofras e nada mais possas amar
Os pecados que fizeste te sejam retornados
E por fim chores o que chorar fizeste aos amados

Os teus olhos já não tem luz, e só brilham no egoísmo
O teu tempo já passou e nada te leva
Para parares de apodrecer o mundo
Para finalmente nos deixares em paz

E quando olhas para ti, não vês o mesmo que eu vejo?
Porque, oh, porque, não paras de olhar para mim…

J. pousou o lápis, quase sem bico…levantou os olhos para o espelho partido e baixou a cabeça…

Miss You…

Fomos na noite um rodopio de luz

dançando na escuridão iluminada pelo desejo

éramos sombras, fugazes, longas, transparentes,

juntos reinamos na fuga à noite eterna…

Éramos noite de luar que não terminava

um eterno lusco-fusco de prazeres malditos

um jorrar de sorrisos cúmplices e sinceros

numa correria etérea pelas nossas ruas sombrias

Mas tu partiste…

Miss you…

Agora és apenas uma voz quente nos meus sonhos

que chora, que grita, que clama, que ama…

uma voz que me mata, que me afasta, que me domina…

és a voz que me enlouquece…

Agora és uma sombra que me entristece,

a luz fria que não me ilumina,

a comida que me envenena,

a saudade que me desvaira…

Miss you…

 

Salvação…


Estou perdido em ti…

Perdido nos teus olhos de mel, acesos com o calor que nos rodeia,
Desespero quando olhas para mim, fazes-me enlouquecer,
Tão perdido, no fundo do nada com uma luz que me encandeia,
Sou um medo de te perder e mais nada ter…

Estou perdido em ti…

Tão profundo, tão escuro, não consigo dormir,
Penso em ti, preciso de ti, sem pensar em mim,
Estou sem forças, para lutar ou fugir,
Deste sonho etéreo, desta batalha sem fim…

Estou perdido em ti…

Estou cego de amor, numa sala sem luz,
Afogo-me no teu carinho, do amor que me enlouquece,
Caiu nos teus braços, no teu colo que me seduz,
És ardor sem dor, numa teia que o amor tece…

Estou perdido em ti…
e em ti tudo encontro quando me perco…

Desvanecência…


Perguntaram-me se tinha deixado de escrever…
Perguntaram-me se tinha perdido a inspiração…
Perguntaram-me se mais nada tinha a declamar…
Perguntaram-me se tinha desvanecido…

Se calhar…não sei…amargura-me ver o blog que tanto prazer me deu a pairar sozinho no éter…a viver de saudades antigas…

Voltarei…sim…ainda não acabei…não me esqueçam…

Comprimidos…


O quarto é escuro e bolorento…
T está encostado junto a um sofá roto, deitado no chão a segurar uma folha de jornal rasgada… olha para a janela suja e fria, por onde a luz dos candeeiros cria sombras fugazes…levanta-se, vagarosamente e fecha a cortina rasgada…um pouco de claridade da lua ainda entra no quarto, iluminando uma pequena mesa com um telefone…

T senta-se,pesado, no sofá e pega no telefone…marca, lentamente, um número…

T: Tou…sou eu…queria ouvir a tua voz…

T: Eu sei…estou bem…não, não me esqueço de tomar os comprimidos…

T: Sinto-me só…tenho saudades tuas…quando chegas?

T: Não, não me esqueço de tomar os compridos…gosto de ouvir a tua voz de mel…

T: Sinto a falta do teu toque de veludo…queria tanto que estivesses aqui…

T: Queria que me afagasses o cabelo…passasses os dedos longos pelo meu rosto aspero…

T: Porque que demoras tanto? Não vens?

T: Não…não me esqueço dos comprimidos…trazes os miudos?

T: Gosto do barulho que fazem, da alegria que dão…

T: Olha, precisamos de falar mais…preciso de conselhos, da tua sabedoria…as pessoas, os idiotas, magoam-me, ferem-me, arranham-me…

T: É, dizem-me coisas impossíveis, só para serem más…queriam fazer-me mal…querem que seja infeliz…

T: Não, não me esqueço do tomar os comprimidos…as pessoas queriam que eu tomasse mais, mas eu não tomo…más…estúpidas…todas sem um pingo de amor…invejosas…

T: São estúpidas… não sei…quando vens para tomar conta de mim?

T: Preciso tanto de ti…do teu sorriso de cristal…não vens?

T: Sabes aquela foto tua na neve? Perdi-a…queimei-a…queimei todas…por causa das pessoas más e das coisas ignorantes e sem sentido que dizem…Teve de ser…não fiques chateada…anda…vem…

T: Mas tenho a tua foto e a dos miúdos aqui na minha mão…mas queria-vos aqui…a foto não chega…

T: Fotos também são ilusões…o teu toque é real…anda…anda ter comigo…acaba com a minha solidão…

T: Não, não me esqueço de tomar os comprimidos…estou cansado…espero por ti deitado, pode ser?

T: Fome…fome só de ti e do teu toque..anda…estou cansado…anda…

T: Volta para mim, meu amor…

T deixa cair o telefone e levanta-se, sonolento, embriagado, tosco, comatoso…caem os compridos ao chão e espalham-se pelo tapete sujo e poeirento…
T recolhe-se numa manta junto ao chão e adormece… da mão cai-lhe um recorte de jornal rasgado, com uma foto de uma rapariga e de duas crianças…o titulo, iluminado pelo luar…”Jovem e dois filhos morrem em trágico acidente de viação”…
O telefone, fora do descanso, repete, vez após vez… “após o sinal…serão duas horas e quarenta e três minutos…beep, beep…”