The coffe shop in Paris – II

Repleto de suor, o rapaz nos seus trintas finaliza o seu treino intenso.
Limpa com uma toalha a testa molhada e a cabeça rapada, que escorria para o chão do quarto de banho minúsculo.
Bebe mais um golo do seu shake de proteínas e desliga as suas luvas electrónicas que usou para fazer a sua série de push-ups e agachamentos. “60 kilos em cada uma…nada mau…”, pensou para si.

Ao retirar as luvas deixou ficar os punhos pretos de ginásio com as letras a vermelho “SBSR”. Muitos dos seus pares militares já se questionaram o que significava a sigla que estava a ficar gasta. Consideravam que seriam uma sigla de um qualquer grupo militar ou unidade de elite da antiga União Soviética dos Estados Chino-Árabes, ou já das Seal Teams Franco-Canadienses. Mal eles sabiam a história dos punhos…

Batem à porta e do outro lado uma voz rouca diz: “Kapitány Tavares, a helikopter lesz 10 perc alatt kész.” Sobressaltou um pouco o militar, que responde : “Nagy, hívj fel, ha a madár készen áll elhagyni.” Embora o húngaro dele estivesse um pouco enferrujado, já sabia que naquela base submarina apenas ia encontrar os velhos aliados europeus, pelo que tinha relembrado um pouco de húngaro e romeno antes de vir.

Entrou na câmara de duche rápido e  com cinco ou seis jactos de vapor intenso estava de banho tomado. Vestiu a farda rapidamente e foi buscar os seus micro-documentos à sua mochila. Abriu a caixa de couro escuro e envelhecido, e de lá retirou alguns passaportes para chegar ao micro-cartão que instalou numa ranhura no seu antebraço… ao afastar os documentos, um dos passaportes abriu-se. Era o seu favorito. No nome do passaporte estava “Mr. Big Godes, John”, nascido em “Colo do Pito, Castro Daire, Viseu”. Apenas os raros portugueses que ia encontrando nos controles militares desconfiavam da identidade, mas ia sempre dando a volta ao assunto.
Arrumou toda a documentação na caixa, mas ao levantar a papelada deixou ficar na mesa uma fotografia e um convite de casamento…

Na fotografia a sépia já um pouco gasta notava-se a torre Eiffel de fundo e à frente estavam mal alinhados uma série de pessoas que tentavam correr para os seus lugares para tirar a foto.
Martim segurou na foto e as memórias voltaram em força… que esta fotografia foi tirada de propósito, antes todos estarem alinhados, pelo pré-sogro, como lhe chamava, e por ironia do destino foi das poucas que sobrou.
Lembrou-se de toda a família que tinha ido para o casamento… o casamento adiado… a explosão…o coma.
O suor continuou a correr-lhe pela testa e esfregou a cicatriz que tinha ficado na parte de trás do pescoço… os pensamentos disparavam nas memórias fugidias deste tempo. Muitas vezes lhe perguntaram se nos 8 meses que esteve em coma se ouvia as preces de quem o visitava e os relatos que a mãe lhe ia fazendo do momentos seguintes. Não, nada se lembrava. Apenas da música que o despertou e lhe salvou a vida… como tinha salvo ao pai dele. “O destino é muito engraçado…”, concluiu para si.
Arrumou a foto e olhou para o convite de casamento… as palavras “Paris Mon Amour” inscritas na face relembraram-lhe o seu triste destino… e as memórias do seu despertar vieram de novo à sua mente que divagava. Nunca mais se podia esquecer do que ela lhe disse ao ouvido:
“Meu amor, enquanto não os vingar-mos e fizermos aqueles malditos pagarem por os levarem de nós… não nos podemos dedicar ao amor… mas serás sempre meu. Vou partir para fazer a minha parte, a saber que vais fazer a tua… e mais tarde, quando pudermos pousar a cabeça sossegada numa almofada e sorrir inocentemente um para o outro, voltaremos a ser um. Sê forte, meu Martim”.
Lembra-se de a ver sair do quarto de hospital, lágrimas a cair no chão frio, quase a ouvir ambos os corações a partirem-se em pedaços.
“Kapitány, a helikopter rész 1 perc alatt.” Alguém gritou do outro lado da porta e retirou o Capitão Martim Tavares do torpor das suas memórias. “Ok”, gritou a arrumar rapidamente as suas coisas.
Agarrou no mapa da missão e deu uma ultima viste de olhos. Rebentar com este centro de treino e paiol de munições ia ser essencial para bloquear o avanço da Frente Anárquica e recuperar Berlim, ou o que sobrou dela. Começou a rever todos os procedimentos enquanto revia mentalmente os comandos para guiar os drones bombardeiros a partir do helicóptero. Afinal de contas não era o melhor piloto da Resistência das Nações Unidas apenas pelos seus lindos olhos.

The coffe shop in Paris

Capítulo I

A jovem loira mantinha-se impaciente e nervosa, vestida numa gabardina rosa da Burberry, comprada no Harrods antes de rebentar a Guerra. A gabardina leve e distinta escondia subtilmente a mortífera agente que esta era. Para se manter ocupada estava a recitar no seu pensamento, por ordem de preferência, todos os venenos não detectáveis pós-mortem, inodoros e incolores. Um exercício fútil, mas que a mantinha distraída: …”thallio, cianeto, belladona…”
Os seus pensamentos foram interrompidas por um tímido “pssst”. A jovem já tinha sentido alguém a aproximar-se, mas sabia que seria alguém que vinha ter com ela, porque o bilhete que segurava no bolso, já húmido do suor das mãos, dizia simplesmente: “fomos felizes Paris mon amour”.

-Olá Carol…podes sair das sombras… o teu perfume de lilás denuncia-te a quilómetros, disse a jovem de gabardina, com um sorriso.

-Olá miúda … ainda usas esse farrapo velho que compramos nas férias?, responde a Ana Carolina com uma expressão de felicidade ao ver a amiga a virar-se para ela e a abrir os braços para um reencontro entre as duas.

-Ainda o uso e fica-me sempre bem, respondeu a jovem loira, … lembraste dessas férias?

-Sim, como se fossem ontem…estouramos o plafond dos cartões de créditos dos nossos pais… foi uma chatice regressar de camioneta pelo Canal da Mancha, que já nem existe.
-Lembras-te do passeio no Tamisa, Matilde? Quase que éramos expulsas do barco e tínhamos de vir a nado.

-Oh, só arranjas confusões, Carol, sempre pronta para arranjar problemas.

-Tudo por uma boa gargalhada, já era o nosso lema.

As amigas estavam abraçadas e olharam à volta…Paris já não era a mesma desde os ataques… e a torre Eiffel era apenas um monte de metal retorcido, numa imagem do novo mundo que as rodeava…destruído e fumegante, que enevoava o ar e o tornava pesado ao respirar.

Nos escombros do outrora Arco do Triunfo estavam os estilhaços das bombas e tudo era cinzento e sombrio…

A única coisa de pé era a pequena coffe shop, ainda azul e amarela, ainda límpida e serena… na esplanada estava um homem loiro, de gabardine escura e com um ramo de rosas na mão.

-Está ali ele, diz Matilde, com um sorriso maroto.
-Eu sei…e de rosas na mão…sempre o mesmo romântico, diz a Ana Carolina, a encolher os ombros e a sorrir.

Dirigem-se as duas pela rua suja, abraçadas e a sorrir. Ana Carolina apertava o seu bilhete no bolso do seu sobretudo…”fomos felizes Paris mon amour” repetia para si…

A Noite – II

Aquele Pipo só me fode, pensava eu enquanto descia uma calçada íngreme e molhada. Doíam-me a ponta dos pés dos sapatos me apertarem quando estou a descer. Raisparta os sapatinhos de ponta… o meu pai tinha a mania que era finório…era outro cabrão também, isso é que era.

A luz dos candeeiros continuava a fazer sobras esquisitas que me fazia estar atento, mesmo quando só pensava nos gajos… Cabrões os dois, era juntá-los e foder-lhes a boca. Aquele Pipo só me leva pra asneirada. Boi de merda, palmou um telemóvel na mudança que fizemos a semana passada mas fui eu a bater com os costados na esquadra a aturar o boi do Sargento Pires. Teve sorte de eu não o bufar, isso é que foi. Não é que merecesse, pois o cabrão já me tinha denunciado quando gamamos um audi para ir às meninas na barragem. Tive sorte foi que nunca me acusaram. Paneleiro.

Desviei-me de uns caixotes do lixo, destes novos, pra reciclar ou sei lá o quê. Reparo que um dos caixotes, o azul, é mais pequeno que os outros, e tem marcas de queimado no chão. Devem ter pegado fogo ao anterior que ficava naquele lugar. O do lado, o verde, que serve para por as minis e outras cenas de vidro estava meio torto e derreado. Pensei para mim nesta juventude rasca e estes putos só fazem merda…acabam-lhes as pilhas às consolas e vêm para a rua da cabo de tudo…

Lembrei das putas de à bocado e fiquei excitado. Se calhar era mais bem gasto o dinheiro com elas, embora parecessem ja acabaditas e enrugadas. Davam menos trabalho que engatar uma chavala. E era mais rápido. Ia-mos para a Pensão São Teutónio e estava feito. Truz, truz catrapuz. Cinco euros para pensão, que é fixe e limpa, deve ser por ter nome de santo e o dono ser um gayzola de primeira. Trinta euritos pra gaja e lá esvaziava o cofre e saia satisfeito. É uma ideia, mas prefiro o engate.

Não que me fique mais barato…mas na caça é que está o ganho. Primeiro a gaja vai estranhar e olhar para mim de lado a pensar “o que é que este cromo quer?”, mas mais uns copos e uma letrazita e a chavala vai estar na minha. Pode ser que tenha carro e assim escuso de perder tempo a tentar ir para casa dela ou de a ir comer para a praia. Tenho de pensar num plano ou uma historita pra lhes dar a volta e elas pensarem que sou um finório cheio de nota e me queiram levar pro saco. Acho que vou ser estudante de medicina que esta a pensar sair do curso para ir um ano pros states para ver se me encontro. Caem sempre nesta.

Começa a chuviscar e ainda estou longe da ribeira. Se piorar ainda chego lá pior que um pinto. Faço contas e acho que posso apanhar um taxizito que ainda me sobram uns cobres…

A Noite – Parte I

Continuei pelo passeio sujo, desviando-me das cascas de laranja que tornavam o chão uma armadilha. O ar estava carregado, o que me fazia sentir cansado e sem forças. Meti a mão ao bolso para ver o meu dinheiro. Tirei umas notas amarrotadas…10, 15, 35, 60 euros. “Já dá para a noite”, pensei. Dirigi-me na noite escura para a zona histórica. Sabia que ia estar carregada de turistas e de estudantes bêbados. “Pode ser que dê uma”, murmurei entre um sorriso nos lábios…”até me fazia bem”.
Os candeeiros da rua iam alternando a minha sombra. Esta crescia e diminuía conforme avança para o meu objectivo. Ia-me fazendo companhia e distraia-me enquanto não chegava. O meu bafo fazia vapor e estava a ficar com o nariz molhado do frio.
Distraí-me com umas prostitutas que conversavam no outro passeio e tropecei num buraco feito pela chuva e pelo uso da calçada. “Porra pra esta merda, pá”, berrei, enquanto me equilibrava num salto e me encostava à parede.
As putas riram-se ao me verem quase cair.
Parei e verifiquei se não tinha dado cabo dos sapatos. Eram do meu pai e foram das poucas coisas de jeito que me deixou ao fugir. Isso e dividas. Bem… e um meio-irmão mulato. Os sapatos salvaram-se e não sujaram o lustro que tanto custou a puxar.
Elas riram-se e perguntaram com cara de gozo se estava bem: “Tás bem, môre? Queres uns miminhos? Anda cá à Locas que ela põe-te nos trinques” disse a mais gorda, com a barriga que parecia querer fugir para respirar entre uns calções apertados demais e um top tão curto que quase se viam as mamas em baixo e por cima também.
“Deixa o moço que ele vai ver se tem pito de graça…olha pra ele tão bonitinho”, disse a loira desdentada com umas raízes pretas que parecia que lhe tinha ardido o cabelo debaixo para cima, como num incendio florestal.
“Obrigado, moças, mas estou bem”, disse atrapalhado. Lá segui o caminho certo que não me tinha sujado. Esta roupa tinha-me custado bem caro. Tive de descarregar a casa de um tipo e montar uma porrada de armários na casa nova. Foi o Pipo que me arranjou o biscate. Mas acho que o cabrão recebeu mais do que as 150 mocas que dividiu comigo. Cabrão. Se estiver ai na noite vou já dizer-lhe das boas.

Fuga


Capítulo I

D acordou com a ressaca do costume. Boca seca, voz arranhada, o corpo mole e dorido. Enjoado procurou algo para beber, mas só encontrou uma cerveja entornada…”Também serve”, pensou D enquanto limpa as remelas dos olhos.
Bebeu o pouco liquido azedo e quente que existia na garrafa de Super-Bock, mas começou a ficar mal disposto. O seu figado, doente e pesado, fonte do tom de pele amarelada que D nos últimos tempos apresenta, deixa-o sempre enjoado e com vómitos. Hoje não é excepção.
D afasta o mosquiteiro que protege a sua cama e corre para o quarto de banho. Tropeça em alguma roupa que está espalhada pelo chão, e cai desamparado sobre uma cadeira…bate com a testa num braço desta e faz um pequeno golpe…a roupa de dias acumulados cai ao chão, bem como a sua pistola e uma soqueira. “Fodasse, não tenho sorte nenhum!” Exclamou D ainda mais amarelado e com sangue a aparecer na testa.
Levanta-se e pega na pistola e arruma-a em cima de uma mesa que faz de cómoda do quarto. O calor já começa a afectá-lo e D interroga-se que horas serão. Olha a volta desorientado enquanto limpa o sangue a uma camisa que estava suja no chão. Não vê nenhum relógio ou telemóvel, por isso vai à persiana fechada para ver se já é de dia. O sol forte cega-o e quase não consegue acabar de abrir a persiana. A luz que ilumina o quarto deixa perceber as rachadelas nas paredes e a humidade no tecto e D lembra-se que aquela espelunca nunca seria a pensão de 4 estrelas que anunciavam no jornal.
Quando consegue abrir os olhos, D observa a paisagem. O mundo continuava, mas as naves aliens não paravam de descarregar armamento e pessoal na avenida principal da cidade…

Fim do capitulo I.