Contos
The coffe shop in Paris 2
Repleto de suor, o rapaz nos seus trintas finaliza o seu treino intenso.
Limpa com uma toalha a testa molhada e a cabeça rapada, que escorria para o chão do quarto de banho minúsculo.
Bebe mais um golo do seu shake de proteínas e desliga as suas luvas electrónicas que usou para fazer a sua série de push-ups e agachamentos. “60 kilos em cada
uma…nada mau…”, pensou para si.
Ao retirar as luvas deixou ficar os punhos pretos de ginásio com as letras a vermelho “SBSR”. Muitos dos seus pares militares já se questionaram o que significava a
sigla que estava a ficar gasta. Consideravam que seriam uma sigla de um qualquer grupo militar ou unidade de elite da antiga União Soviética dos Estados Chino-
Árabes, ou já das Seal Teams Franco-Canadienses. Mal eles sabiam a história dos punhos…
Batem à porta e do outro lado uma voz rouca diz: “Kapitány Tavares, a helikopter lesz 10 perc alatt kész.” Sobressaltou um pouco o militar, que responde : “Nagy, hívj
fel, ha a madár készen áll elhagyni.” Embora o húngaro dele estivesse um pouco enferrujado, já sabia que naquela base submarina apenas ia encontrar os velhos
aliados europeus, pelo que tinha relembrado um pouco de húngaro e romeno antes de vir.
Entrou na câmara de duche rápido e com cinco ou seis jactos de vapor intenso estava de banho tomado. Vestiu a farda rapidamente e foi buscar os seus micro-
documentos à sua mochila. Abriu a caixa de couro escuro e envelhecido, e de lá retirou alguns passaportes para chegar ao micro-cartão que instalou numa ranhura
no seu antebraço… ao afastar os documentos, um dos passaportes abriu-se. Era o seu favorito. No nome do passaporte estava “Mr. Big Godes, John”, nascido em
Colo do Pito, Castro Daire, Viseu”. Apenas os raros portugueses que ia encontrando nos controles militares desconfiavam da identidade, mas ia sempre dando a
volta ao assunto.
Arrumou toda a documentação na caixa, mas ao levantar a papelada deixou ficar na mesa uma fotografia e um convite de casamento…
Na fotografia a sépia já um pouco gasta notava-se a torre Eiffel de fundo e à frente estavam mal alinhados uma série de pessoas que tentavam correr para os seus
lugares para tirar a foto.
Martim segurou na foto e as memórias voltaram em força… que esta fotografia foi tirada de propósito, antes todos estarem alinhados, pelo pré-sogro, como lhe
chamava, e por ironia do destino foi das poucas que sobrou.
Lembrou-se de toda a família que tinha ido para o casamento… o casamento adiado… a explosão…o coma.
O suor continuou a correr-lhe pela testa e esfregou a cicatriz que tinha ficado na parte de trás do pescoço… os pensamentos disparavam nas memórias fugidias
deste tempo. Muitas vezes lhe perguntaram se nos 8 meses que esteve em coma se ouvia as preces de quem o visitava e os relatos que a mãe lhe ia fazendo do
momentos seguintes. Não, nada se lembrava. Apenas da música que o despertou e lhe salvou a vida… como tinha salvo ao pai dele. “O destino é muito
engraçado…”, concluiu para si.
Arrumou a foto e olhou para o convite de casamento… as palavras “Paris Mon Amour” inscritas na face relembraram-lhe o seu triste destino… e as memórias do seu
despertar vieram de novo à sua mente que divagava. Nunca mais se podia esquecer do que ela lhe disse ao ouvido:
Meu amor, enquanto não os vingar-mos e fizermos aqueles malditos pagarem por os levarem de nós… não nos podemos dedicar ao amor… mas serás sempre
meu. Vou partir para fazer a minha parte, a saber que vais fazer a tua… e mais tarde, quando pudermos pousar a cabeça sossegada numa almofada e sorrir
inocentemente um para o outro, voltaremos a ser um. Sê forte, meu Martim”.
Lembra-se de a ver sair do quarto de hospital, lágrimas a cair no chão frio, quase a ouvir ambos os corações a partirem-se em pedaços.
Kapitány, a helikopter rész 1 perc alatt.” Alguém gritou do outro lado da porta e retirou o Capitão Martim Tavares do torpor das suas memórias. “Ok”, gritou a arrumar
rapidamente as suas coisas.
Agarrou no mapa da missão e deu uma ultima viste de olhos. Rebentar com este centro de treino e paiol de munições ia ser essencial para bloquear o avanço da
Frente Anárquica e recuperar Berlim, ou o que sobrou dela. Começou a rever todos os procedimentos enquanto revia mentalmente os comandos para guiar os
drones bombardeiros a partir do helicóptero. Afinal de contas não era o melhor piloto da Resistência das Nações Unidas apenas pelos seus lindos olhos.
The coffe shop in Paris 1
Capitulo I
A jovem loira mantinha-se impaciente e nervosa, vestida numa gabardina rosa da Burberry, comprada no Harrods antes de rebentar a Guerra. A gabardina leve e
distinta escondia subtilmente a mortífera agente que esta era. Para se manter ocupada estava a recitar no seu pensamento, por ordem de preferência, todos os
venenos não detectáveis pós-mortem, inodoros e incolores. Um exercício fútil, mas que a mantinha distraída: …”thallio, cianeto, belladona…”
Os seus pensamentos foram interrompidas por um tímido “pssst”. A jovem já tinha sentido alguém a aproximar-se, mas sabia que seria alguém que vinha ter com
ela, porque o bilhete que segurava no bolso, já húmido do suor das mãos, dizia simplesmente: “fomos felizes Paris mon amour”.
Olá Carol…podes sair das sombras… o teu perfume de lilás denuncia-te a quilómetros, disse a jovem de gabardina, com um sorriso.
Olá miúda … ainda usas esse farrapo velho que compramos nas férias?, responde a Ana Carolina com uma expressão de felicidade ao ver a amiga a virar-se para
ela e a abrir os braços para um reencontro entre as duas.
Ainda o uso e fica-me sempre bem, respondeu a jovem loira, … lembraste dessas férias?
Sim, como se fossem ontem…estouramos o plafond dos cartões de créditos dos nossos pais… foi uma chatice regressar de camioneta pelo Canal da Mancha, que
já nem existe.
Lembras-te do passeio no Tamisa, Matilde? Quase que éramos expulsas do barco e tínhamos de vir a nado.
Oh, só arranjas confusões, Carol, sempre pronta para arranjar problemas.
Tudo por uma boa gargalhada, já era o nosso lema.
As amigas estavam abraçadas e olharam à volta…Paris já não era a mesma desde os ataques… e a torre Eiffel era apenas um monte de metal retorcido, numa
imagem do novo mundo que as rodeava…destruído e fumegante, que enevoava o ar e o tornava pesado ao respirar.
Nos escombros do outrora Arco do Triunfo estavam os estilhaços das bombas e tudo era cinzento e sombrio…
A única coisa de pé era a pequena coffe shop, ainda azul e amarela, ainda límpida e serena… na esplanada estava um homem loiro, de gabardine escura e com um
ramo de rosas na mão.
Está ali ele, diz Matilde, com um sorriso maroto.
Eu sei…e de rosas na mão…sempre o mesmo romântico, diz a Ana Carolina, a encolher os ombros e a sorrir.
Dirigem-se as duas pela rua suja, abraçadas e a sorrir. Ana Carolina apertava o seu bilhete no bolso do seu sobretudo…”fomos felizes Paris mon amour” repetia para
si…
Francesinha ou o calor do vermelho
A luz de halogéneo piscava de quando em vez, e criava sombras cada vez mais esguias nas paredes.
O detective Mendes, cansado, abriu mais o colarinho e esticou o já solto nó da grava azul clara (com manchas de gordura e mostarda), e gritou, ecoando pelas
paredes com mofo:
Mas afinal, vais cantar ou não? Já estou farto desta merda, pá!
Sentou-se, pesado e com algum esforço na cadeira de metal, escamada e ferrugenta, e inclinou-se para cima da secretária antiga, a olhar para o outro ocupante
deste gabinete bolorento do calabouço da Policia Judiciária. Do outro lado da mesa fitava-o, com um olhar mortiço (pelo menos parecia mortiço, já que os olhos mal
se viam pela maquilhagem escura), um jovem que parecia já ter tido melhores dias.
Com algum esforço, ergueu-se e colocou os cotovelos na mesa, a olhar directamente para o detective Mendes, aproveitando para afastar uns cabelos da frente dos
olhos, mesmo com as algemas nos pulsos:
Não percebes, pois não? És mais um carneirinho que pensa que é gente. Não tenho mais nada para te di…
A frase foi interrompida por um estalo com força suficiente para deitar o rapaz ao chão, caindo da cadeira, e jorrando algumas gotas de sangue na parede beje do
gabinete, que se vão juntar às outras que já la estariam, secas e acastanhadas, fruto de outros estalos noutros desgraçados.
Estás a cansar-me, pá!, gritou o detective: – e eu gosto pouco de me cansar, ò boi, por isso explicas-te rápido ou não sais daqui a caminhar.
Num rompante dirigiu-se ao rapaz, e com uma força anormal para um homem de estatura média e fora de forma, levantou-o e num movimento ríspido colocou-o na
cadeira:
Olha para as fotos, Filipe, olha para este banho de sangue, e diz-me quem fez isto… tu sabes que eu sei que tu sabes!
Filipe limpou o sangue dos lábios e com um sorriso desafiante, sem olhar para as fotos, impressas numas folhas A4, onde alguns cadáveres, femininos e
masculinos, prostrados em poças de sangue, ocupavam o tampo da mesa
Esticou a t-shirt com o símbolo da casa Stark, do Game of Thrones, e continuou a sorrir.
Eu sei que estiveste aqui, disse o detective, apontando para as fotos: – e sabes porque, meu camelo? porque o anel de casamento que falta no dedo deste
desgraçado deste jardineiro da Câmara do Porto estava no teu bolso quando te fomos buscar à baixa, meu otário, por isso, vais-me contar quem fez isto, porquê, e
que raio se passa na minha cidade, nem que te tenha de arrancar as orelhas!
Não sabes nada, pois não? disse, com desdém, Filipe: – A noite do Porto está a ferro e fogo e vocês nem sabem o que se passa…
Sabemos que anda a morrer gente, e que tu e a tua cambada de cybergóticos estão envolvidos, respondeu o Mendes, agastado: – Vou é meter-vos todos na cadeia
se não cantas, palhaço.
Nem imaginas o medo que tenho… ah!, disse Filipe a levantar-se: – e agora que sei que também não sabes nada, acho que me vou embora.
Filipe, num movimento súbito, e com uma velocidade inumana, parte as algemas que prendiam os seus pulsos como se fossem de papel, e agarra o detective
Mendes, por trás, na cadeira, empunhando um punhal com símbolos nórdicos junto ao pescoço deste, sussurra-lhe ao ouvido:
Carneirinho, sabes porque que o prato favorito desta bela cidade do Porto é uma vermelha, fumegante, picante e pujante Francesinha? Ah, ironia, simples ironia,
gostarem tanto de algo espesso e vibrante que vos comanda sem saberem…
Balões, ou Ode à Essencia da Humanidade – Capitulo II
Matilde acordou com mais uma explosão, que iluminou a noite. A cabeça doía-lhe muito, mas, ao passar os dedos pelos caracóis dourados não notou sangue. “Pelo
menos isso…onde estou…” e os seus pensamentos foram interrompidos por mais uma explosão.
A luta dos Resistentes estava a correr mal. Um pequeno ataque a um armazém para recuperar alguma comida e água guardada pelas Máquinas, liderado pelos
lideres dos NewSupremacy, era uma armadilha, provavelmente por algum traidor que trocou mais uns dias de vida por uns trocos.
Estavam agora rodeados, e, como sempre, não iriam cair sem dar luta… esse não era o modo dos NewSupremacy, e como tal, rebentou a luta, voaram balas, facas,
granadas e os robôs começaram a produzir os seus animais de balões. Fumo, fogo e explosões no armazém… gritos e movimentos de luta por todo o lado.
Juntaram-se à luta os Mech, robôs novos, com mais braços e mais rápidos. Ia ser complicado.
Matilde olhou à sua volta e reparou que os seus frascos de elixir de cura estavam espalhados… “já tenho poucos, maldição”, e ao levantam a cabeça para se situar
uma visão gelou-a…
Martim!” gritou, por ver o seu irmão mais novo, numa luta desenfreada com um dos robôs, que o segurava pelo pescoço enquanto tentava enfiar uma flor de balão
pela sua garganta.
Martim, no seu camuflado, lutava e tentava chutar o Mech, coberto de balões, que o levantava no ar. As suas armas estavam no chão, a sua katana longe, e Matilde
gelou ao ver que o Martim estava a tentar chegar a uma granada que tinha presa em si…
Matilde tentou levantar-se para ajudar o irmão, mas sentiu uma dor lacinante num joelho… gritou e caiu… olhou novamente em volta e, no meio dos fogos, do fumo,
da luta incessante que a rodeava, e procurou desesperadamente por algo…
SALTA, SALTA, SALTA” ouviu, estridente, um grito que veio do ar. Olhou para cima e viu um vulto a saltar de cima de um armário em direcção ao Mech que segurava
o Martim, um salto de quatro metros pelo ar. Tudo lhe parecia em câmara lenta até que ouviu outro grito “Miga, preciso do teu punhal, já!”, e Matilde saiu do torpor que
estava.
Raisparta Carolina, sempre a mesma!” gritou a Matilde, com um sorriso, enquanto procurava na sua bota, adornada com um autocolante da Violetta, pelo punhal
pedido pela amiga. Encontrou e suspirando fundo, concentrou-se nos seus pensamentos “anda lá Matilde, exactamente como nos treinos” e, com uma precisão
inumana lançou o punhal na direcção da amiga.
Carolina, sem olhar, apanha o punhal no ar e aterra como um gato nas costas do Mech. O Mech surpreso afrouxa o aperto que segurava o Martim, e este, com um
salto mortal e um pontapé, consegue soltar-se. Aterra perto da katana que rapidamente agarra com a mão direita, enquanto que com a esquerda retira a granada que
tem no colete.
Carolina em cima do Mech luta para se segurar, enquanto este tenta agarra-la, com os braços disponiveis, enquanto tenta fabricar uma espada de balão para a atingir.
Carolina agarra o punhal com a mão direita e segura-se com os joelhos na nuca do Mech, e com a esquerda arranja uma ranhura entre a armadura de balões…grita
Martim, ainda estás a dormir? Ou vais-me ajudar”. enquanto começa a cortar os fios de controlo do robô.
Martim, com duas cambalhotas, evita a perna do Mech e rapidamente situa-se na virilha do Mech. Com movimentos precisos, usa a katana para separar os balões
que protegem um pequena porta na perna do Mech, e em menos de um segundo, abre um brecha e enfia a granada lá dentro. “Salta, miuda”, grita ele, “isto vai
aquecer”.
Carolina salta como um gato para o ar e aterra em cima de outro robô, já meio destruido, usando os balões para amparar a queda “Ah, também servem para isto…
hummm…sinto saudades dos castelos de saltar”, pensou a Carolina, com um sorriso malicioso.
Martim, com uma velocidade felina, recua para trás de um caixote e observa o Mech a cambalear, descontrolado, a encher balões, e a soltar faiscas da cabeça.
Abaixa-se quando a granada explode e observa o Mech a cair e a saltar no chão, ao bater com a armadura de balões no asfalto.
No meio do fumo aparece um jipe, a acelerar e a apitar, e, no lugar do condutor, Matilde acena para os seus companheiros “Rápido malta, que acho que vêm ai
reforços”. O Martim salta para o lugar do passageiro, com um ar preocupado “Só perdemos gente e munições…” desbafou. “Não te preocupes, recuperei alguma
água e munições, olha lá atrás”, disse a Matilde.
Martim olha para a parte de trás do jipe e assusta-se um pouco quando aterra a Carolina em cima de uns bidões de água. “Isto foi fixola, já limpei mais 3 Mech pra
minha conta”, diz a Carolina, enquanto devolve o punhal à Matilde, “isto é teu, Miga”.
Obrigado”, diz a Matilde, “sabes como é especial”.
Hey, este ultimo conta para mim… a granada era minha” diz o Martim para a Carolina. “Pfff”, responde esta, “continuas sem querer dividir os brinquedos”, com um
sorriso, “vamos mas é para o castelo reunir as tropas”.
O jipe, com os lideres dos NewSupremacy, avança na noite, seguido de uma Transit com mais alguns companheiros… não foi uma grande noite, mas continuam
vivos…e isso é bom.
Cenas dos próximos capítulos:
Capitulo III
Martim: “Lembraste deste aniversário?”
Matilde: “Sim o dos balões…o pai bem tentou…”
Carolina: “Já falei com o Rafa, e lá porque ele não sai de casa, não significa que não nos ajude”, diz ela com um ar descontraído. “Bem sabes que o génio é ele”.
Afonso: “Ele a mim não me diz a verdade”, disse, a sentar-se… “Sinto falta da Nóno e do Edu, desde que eles partiram para Espanha”, desabafou.
Capitulo IV
Carolina: “Não sabes o que lhes aconteceu…” gritou ela. “Separamo-nos e foi isso”, disse-o com uma lágrima no canto do olho. “Eles eram os Supremacy, sobreviver
era o que faziam melhor”.
Matilda: “Calma rapariga, temos de ter fé e não nos basearmos em rumores”, disse ela, a pousar a guitarra convertida em sabre no chão.
Olharam, os três, estupefactos, para a maior plantação de arvore da borracha que alguma vez viram, completamente rodeada de cercas laser e com Mechs a
guarda-la por todo o lado.
Capitulo V
Martim: “Não, ele foi escuteiro. Se alguém sobrevivia nos montes de Viana era ele” diz ele, nervoso.
Carolina: “Eu sei, eu sei”, reponde a por-lhe a mão no ombro, “se achas que sim, vamos lá ter com ele”
Matilde, com uma lágrima no canto do olho: “Eu também vou…”
Pedro: “Não, não posso…não sei…eu traumatizei uma criança…e não me apercebi dos sinais…” disse-o, sentado, a olhar o chão.
Martim: “Mas Pai…por favor…” implorou, a procurar apoio nos seus companheiros.
Capitulo VI
Parecia impossível, mas aquela espada preta que não parecia uma espada era mesmo capaz de destruir os balões indestrutíveis. A esperança tinha voltado aos
Balões, ou Ode à Essencia da Humanidade – Capitulo I
ano que corre é o de 2037, e a Humanidade está reduzida a cinzas.
O que parecia impossível a algumas décadas atrás é uma realidade… somos poucos, muito poucos, e sempre a ser caçados e em guerra com as máquinas.
A Humanidade, distraída com os seus reality shows, as suas publicidades, as suas bimbys e os seus jogos de futebol, não soube reparar no crescimento de um mal
que nos iria exterminar a todos… as Máquinas, em 2015, aprenderam a usar os balões… foi o início do fim.
Não reparamos no inicio, e os videos nos youtubes e afins pareciam engraçados… “Olha o robozeco a fazer um animal de balões, que giro”
Mas, em pouco tempo, e sem que a Humanidade desse por isso, começaram a desaparecer, com mortes muito pouco suspeitas, todos os palhaços e mimos que
faziam animais de balões nas ruas e nas festas de criança.
É uma profissão em extinção”, diziam alguns… “coitado, deve ter sido depressão” diziam outros, quando aparecia num rodapé de um jornal local que mais um
palhaço aparecia estrangulado por uma girafa de balão… e até os vídeos a ensinar a nobre arte de escultura em balões desapareciam, misteriosamente, da Internet.
Em pouco tempo, já não havia quem fizesse animais, ou outras construções, de balões, e a Humanidade não ligou, porque, afinal, existiam as Máquinas para os
fazerem… e faziam-nos tão bem, cada vez mais sofisticados, cada vez mais resistentes… bonitos, novos, esculturas sem igual…
E foi o começo do fim… a Humanidade notou muito tarde que os animais de balões, quando feitos de determinada maneira, e com determinada borracha (que
apareceu, de repente, como por magia), eram praticamente invenciveis.
Surgiram os animais de balões, depois as esculturas de balões, até casas de balões. E naturalmente, apareceram os tanques de balões e por fim os exércitos de
balões, que rodeavam as Máquinas que os criavam, tornavam-nas completamente impermeáveis e indestrutíveis. As balas saltavam e faziam ricochete, as facas e
as agulhas não conseguiam rasgar a borracha super-dura. Somos atacados e neutralizados sem dó nem piedade… a Humanidade, em pouco tempo, começou a ser
caçada… o fim estava à vista…
Caçavam-nos sem misericórdia… sufocavam-nos com os balões, destruíam as nossas casas com as esculturas de balões, roubavam a nossa água em balões…
em poucos anos, quase não havia Humanidade…
Mas, como sempre, a Resistência surgiu… e no fundo, no fundo, uma Gotinha de Sonho e esperança aparecia aqui e ali…
Ódio
O teu nome em mim ficou gravado
Sem nunca ver a tua face verdadeira
Rasgar-te esse sorriso perverso e imoral
Destruir o teu rosto cruel, e afogar-te no teu fel
És uma falsidade que o mundo não vê, e eu não consigo afastar-te
Vejo o pecado no que dizes, provocando a dor e amargura
E não sei rezar a Deus por ti, nada de amável me sai
Não me acredito que já foste inocente, e agora cresceste nisto
Não me acredito que já foste comum, e num demónio te tornaste
És podre e eu sei que sabes que és
És podre e eu sei que sentes o teu sorriso a matar
És podre e queria por-te um fim
És podre e em mim ficou o teu nome gravado
Espero que no inferno haja um lugar para ti
Ardas, sofras e nada mais possas amar
Os pecados que fizeste te sejam retornados
E por fim chores o que chorar fizeste aos amados
Os teus olhos já não tem luz, e só brilham no egoísmo
O teu tempo já passou e nada te leva
Para parares de apodrecer o mundo
Para finalmente nos deixares em paz
E quando olhas para ti, não vês o mesmo que eu vejo?
Porque, oh, porque, não paras de olhar para mim…
Comprimidos..
O quarto é escuro e bolorento…
T está encostado junto a um sofá roto, deitado no chão a segurar uma folha de jornal rasgada… olha para a janela suja e fria, por onde a luz dos candeeiros cria
sombras fugazes…levanta-se, vagarosamente e fecha a cortina rasgada…um pouco de claridade da lua ainda entra no quarto, iluminando uma pequena mesa com
um telefone…
T senta-se,pesado, no sofá e pega no telefone…marca, lentamente, um número…
T: Tou…sou eu…queria ouvir a tua voz…
T: Eu sei…estou bem…não, não me esqueço de tomar os comprimidos…
T: Sinto-me só…tenho saudades tuas…quando chegas?
T: Não, não me esqueço de tomar os compridos…gosto de ouvir a tua voz de mel…
T: Sinto a falta do teu toque de veludo…queria tanto que estivesses aqui…
T: Queria que me afagasses o cabelo…passasses os dedos longos pelo meu rosto aspero…
T: Porque que demoras tanto? Não vens?
T: Não…não me esqueço dos comprimidos…trazes os miudos?
T: Gosto do barulho que fazem, da alegria que dão…
T: Olha, precisamos de falar mais…preciso de conselhos, da tua sabedoria…as pessoas, os idiotas, magoam-me, ferem-me, arranham-me…
T: É, dizem-me coisas impossíveis, só para serem más…queriam fazer-me mal…querem que seja infeliz…
T: Não, não me esqueço do tomar os comprimidos…as pessoas queriam que eu tomasse mais, mas eu não tomo…más…estúpidas…todas sem um pingo de
amor…invejosas…
T: São estúpidas… não sei…quando vens para tomar conta de mim?
T: Preciso tanto de ti…do teu sorriso de cristal…não vens?
Prólogo
O papá boceja a ver mais um canal de desporto e lentamente levanta-se do sofá. Olha e vê a sua filha, Matilde, entretida a brincar com as
bonecas, sentada à chinesinha num tapete de várias cores.
Matilde, está na hora de ires dormir, diz o papá com um sorriso nos lábios.
Mas papá…ainda não acabei…só mais um bocadinho, pede Matilde com os seus olhos de mimo.
Já se passou um bocadinho e mais outro bocadinho…anda, eu levo-te para a caminha…dá um beijinho à mamã.
Matilde, com um beijinho e um abraço da mamã, corre para o quarto rosa, decorado com princesas e bonecos, onde os seus brinquedos fazem uma pirâmide num dos cantos. Senta-
se na caminha e tira o pequeno robe.
O papá ajudou Matilde a entrar na cama e entregou-lhe a boneca preferida dela. Fez uma festinha e preparava-se para desligar a luz…
Papá…lês-me a história?
Uma história…bem, vamos lá ver…uma história…temos aqui…
Não papá, não uma história…A História!
Outra vez?! Queres ouvir esta história outra vez? Temos aqui tantas para ler…queres ouvir esta de certeza?
Sim papá…a história…
Ok, querida, vamos lá então outra vez.
Matilde sorri e aconchega-se mais com a sua boneca de trapos. O papá pega no livro, já dobrado e amassado de tantas leituras e começa:
A Princesa Matilde e a Gotinha de Sonho. Era uma vez…