Capitulo I
A jovem loira mantinha-se impaciente e nervosa, vestida numa gabardina rosa da Burberry, comprada no Harrods antes de rebentar a Guerra. A gabardina leve e
distinta escondia subtilmente a mortífera agente que esta era. Para se manter ocupada estava a recitar no seu pensamento, por ordem de preferência, todos os
venenos não detectáveis pós-mortem, inodoros e incolores. Um exercício fútil, mas que a mantinha distraída: …”thallio, cianeto, belladona…”
Os seus pensamentos foram interrompidas por um tímido “pssst”. A jovem já tinha sentido alguém a aproximar-se, mas sabia que seria alguém que vinha ter com
ela, porque o bilhete que segurava no bolso, já húmido do suor das mãos, dizia simplesmente: “fomos felizes Paris mon amour”.
Olá Carol…podes sair das sombras… o teu perfume de lilás denuncia-te a quilómetros, disse a jovem de gabardina, com um sorriso.
Olá miúda … ainda usas esse farrapo velho que compramos nas férias?, responde a Ana Carolina com uma expressão de felicidade ao ver a amiga a virar-se para
ela e a abrir os braços para um reencontro entre as duas.
Ainda o uso e fica-me sempre bem, respondeu a jovem loira, … lembraste dessas férias?
Sim, como se fossem ontem…estouramos o plafond dos cartões de créditos dos nossos pais… foi uma chatice regressar de camioneta pelo Canal da Mancha, que
já nem existe.
Lembras-te do passeio no Tamisa, Matilde? Quase que éramos expulsas do barco e tínhamos de vir a nado.
Oh, só arranjas confusões, Carol, sempre pronta para arranjar problemas.
Tudo por uma boa gargalhada, já era o nosso lema.
As amigas estavam abraçadas e olharam à volta…Paris já não era a mesma desde os ataques… e a torre Eiffel era apenas um monte de metal retorcido, numa
imagem do novo mundo que as rodeava…destruído e fumegante, que enevoava o ar e o tornava pesado ao respirar.
Nos escombros do outrora Arco do Triunfo estavam os estilhaços das bombas e tudo era cinzento e sombrio…
A única coisa de pé era a pequena coffe shop, ainda azul e amarela, ainda límpida e serena… na esplanada estava um homem loiro, de gabardine escura e com um
ramo de rosas na mão.
Está ali ele, diz Matilde, com um sorriso maroto.
Eu sei…e de rosas na mão…sempre o mesmo romântico, diz a Ana Carolina, a encolher os ombros e a sorrir.
Dirigem-se as duas pela rua suja, abraçadas e a sorrir. Ana Carolina apertava o seu bilhete no bolso do seu sobretudo…”fomos felizes Paris mon amour” repetia para
si…